domingo, 19 de abril de 2009

Mendigo


Obstáculo no passeio.
Como que pedra solta na calçada.
És objecto que se tenta evitar a todo o custo.
Ignorado porque ninguém te olha, apenas te evita.
No frio do Inverno fazes da calçada nua a tua almofada.
Recorte de vidas passadas que escondes por detrás de trapos andrajosos.
Que vida tiveste?
Será que foste pai ou mãe ou mesmo filho de alguém?
Quem sabe se tiveste uma vida plena e faustosa.
Apenas sei que o teu odor nauseabundo afasta o comum dos mortais.
Não afastas o meu olhar a minha imaginação.
Consigo olhar para ti e ver-te sem essa indumentária de plástico que escolheste para te salvaguardares da chuva.
Crio-te uma vida.
Vida com sorrisos, abundância e família.
Crio em ti o universo que desejo para mim.
Esquecendo-me que provavelmente és assim para fugir à família ou porque a mesma te abandonou.
Indago se preferes essa vida como que bálsamo para um passado de sofrimento.
Seja como for, és mendigo.
Pedra solta de calçada, objecto nauseabundo que se contorna e se evita olhar.
Para mim és mendigo, sem abrigo, pessoa dona de uma história que me faz imaginar como foste.
És o ser humano que olho de frente, não para poder contornar, mas para saber que existes.
Ser humano anónimo, cofre de uma história
.

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