terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Campo de Batalha

O campo lamacento gela-me todo o corpo, a água repassa-me pelas solas das botas e o buraco que escavámos por debaixo do Sherman para nos abrigar da chuva encontra-se totalmente alagado.
Os primeiros raios de luz irrompem pela floresta, mas a chuva essa é completamente impiedosa e encharca-me o cigarro que tento desesperadamente fumar mesmo por debaixo do capuz do impermeável.
Os canhões da infantaria Nazi que não pararam toda a noite continuam a cuspir fogo sobre as nossas linhas.
Já estamos habituados às crateras à nossa volta.
De repente o silêncio que é logo de imediato interrompido pelas sirenes de mergulho dos Stukas alemães que procuram destruir os nossos tanques.
As explosões sucedem-se e muitos dos nossos são atingidos, o metal retorcido começa a fumegar e sobre o metal partes de corpos começam a surgir.
De novo o silêncio, mas desta vez a espera é maior para depois ouvirmos os gritos.
Gritos de gente a correr e a berrar a plenos pulmões. As metralhadoras começam a matraquear os meus ouvidos. Corpos a cair.
É uma carnificina quem foi o louco que enviou estes Boches todos a correr para a morte?
Aqueles que passam a barreira de metralhadoras continuam a correr e a disparar as suas armas contra nós.
Enfiei-me debaixo do Sherman e vou esvaziando carregador atrás de carregador.
As pilhas de corpos retraçados pelas balas aumenta de segundo a segundo e o odor a sangue e carne queimada sufoca-me os pulmões.
À minha volta, soldados rezam outros moribundos rezam para Deus e proferem sempre a última palavra “ Mãe”.
De súbito a luta passa para dentro do nosso perímetro e as espingardas tornam-se ineficazes.
Somos forçados a agarrar as baionetas e a gritaria é agora maior embora eu já não distinga nada do que é dito torna-se tudo distante, a única preocupação é sobreviver a todo o custo.
Salto para a esquerda e encaro uns olhos azuis raiados de sangue, o brilho do metal alerta-me para a iminência da morte.
Grito a plenos pulmões e corro para aquele corpo cinzento que me traz a morte.
Puxo a baioneta para o peito do vulto e de imediato a minha mão é impedida de prosseguir por um pulso de ferro.
De imediato sinto metal a bater-me no corpo, por sorte parado pela fivela do meu cinto.
Ao desequilibrar-me com a força do golpe tive o discernimento de agarrar a gola do uniforme do soldado alemão.
Puxei-o com toda a força do meu ser e ouvi o estrondo da sua cabeça a embater contra as lagartas do Sherman.
Sem hesitar coloco-lhe a baioneta por debaixo das costelas e rodo-a. Um uivo de dor, e de repente uns olhos azuis a perderem o brilho.
O soldado alemão, que sentiu o beijo da morte coloca a mão dentro do casaco e dá-me uma fotografia com uma mulher e uma criança, por detrás tinha uma morada.
De repente um estrondo e vejo um clarão, o estampido de uma granada perto de mim retirou-me os sentidos.
Na cama do Hospital revivo os olhos azuis daquele que morreu às minhas mãos e na minha mão esquerda a fotografia com a reminiscência daquilo que outrora foi uma vida feliz.
Vou voltar para casa embora saiba que tenho a missão de devolver esta fotografia a alguém.
Numa guerra sem sentido e verdadeiramente animal encontrei a minha réstia de humanidade, a conduta pela qual todo e qualquer Homem se deveria de reger.
O amor incondicional à Vida. O ódio à Guerra e à Incompreensão.

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