quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pedaços de um Espelho


Atiro uma moeda para o poço dos desejos e rezo por tudo aquilo que sinto falta.
Com os pés nus sobre um espelho partido, a dor sobe ao coração e apodera-se da mente.
Rezo para que os retalhos da vida se reúnam ao corpo e aliviem o sentimento de perda do que sempre fui.
A identidade perdura na penumbra à espera do mero toque de consciência que concerte o espelho retraçado sobre o qual me encontro.
A alma projeta-se no imenso vazio e clama pelo seu pequeno espaço acolhedor.
Anseio por uma solução enigmática, um elixir descoberto por um exímio alquimista que desentorpeça o corpo inerte pela dor.
Se ao menos os vidros não penetrassem tão profundamente na carne.
Grito surdamente ao Oráculo de tempos perdidos, para que me revele o propósito existencial mais ínfimo.
Inerte, preso num momento, procuro alcançar a chama da consciência do que sou no presente.
Rezo pela liberdade pelo pleno conhecimento do que sou e sempre fui.
Os pedaços de espelho são momentos que fazem parte de um imenso puzzle que revelam o mais íntimo do meu ser.
Arranco cada pedaço da carne e agora caminho vacilante rumo ao futuro juntando peça a peça e aprendendo com cada imagem refletida.
Cada imagem de mim, errada ou não, distorcida ou nítida é um pedaço que pretendo tornar completo e fazer de um retalho um espelho completo que mostre todo o esplendor de uma vida.
Porque sempre no caminho da vida quantos de nós não são forçados a quebrar os seus próprios reflexos e a partir de pequenos momentos e da dor da reconstrução verificam que afinal respirar cada momento vale a pena?
Amar a vida e  cada reflexo próprio, cada toque sublime de consciência é Divino.

Pedro Jorge Correia de Oliveira

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