quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Como se perde uma inocência (Crónica de um Combatente da ll Guerra Mundial)

Ontem, apaguei vinte velas do meu bolo de aniversário, no entanto sinto-me como se tivesse vivido uma vida inteira.
Chamam-me de velhinho, o que é normal depois de ter sobrevivido a mais de quatrocentas missões, e até porque a média de sobrevivência por aqui é de duas semanas.
Os aliados têm novos aviões com melhor desempenho e inundam agora os nossos céus, quase não dando espaço de manobra e quase não se consegue levantar voo. Frequentemente levanto voo de estradas secundárias. Fazemos o que podemos.
Ainda me recordo dos meus últimos dias de Oberstufe (liceu) em Dresden, tinha então dezassete anos, e foi quando a guerra estalou.
Filho de um antigo oficial do exército e que perdeu um dos seus olhos na Flandres, com heróis como Von Richtoffen decidi que estava na hora de cumprir o meu dever com a Pátria e alistei-me na Luftwaffe, ignorando que o cavalheirismo do combate aéreo dos primórdios daria lugar a uma brutal carnificina.
Presentemente creio que a minha dívida para com o meu país está mais do que saldada, com o meu sangue, com as minhas lágrimas e com a perda total da minha juventude e inocência de criança.
Em três anos de guerra sou agora um veterano e às. Tenho um recorde de abate de cento e trinta e sete "mortes" confirmadas, obviamente não contamos as prováveis. O que não é de surpreender, até porque, todos os dias faço de uma a três missões.
Tenho um dia de folga por semana, ao contrário dos Americanos que voam duas a três vezes por semana.
Não é de admirar que alguns de nós tenhamos centenas de vitórias enquanto um às Americano tenha no máximo quarenta a cinquenta vitórias.
Tornei-me empedernido e implacável, não porque tenha prazer em abater ou matar alguém, mas porque se abater os suficientes talvez deixem de continuar a vir e assim acabe esta maldita guerra.
O convívio diário com a morte não nos deixa ter muitos planos pois não?
Cada vez que fecho o canapé sobre a carlinga como se de uma tampa se tratasse, assemelha-se à tampa do meu próprio caixão.
Sei que a todo o momento a missão actual pode muito bem ser a última.
Desafio a morte a todo o momento.
Porque é que eles são cada vez mais? Porque é que não param de vir? Já não mandámos os suficientes para o Inferno?
Em três anos de combate apenas tive três meses e meio parado devido a ter o crânio aberto por um projéctil de um B 25 Mitchell que abati.
Ainda hoje estou a para conseguir entender como sobrevivi e como consegui chegar à base.
Engraçado que apesar das dores e tormentos que passei, apreciei a paz.
Agora percebo que aqueles que se auto-infligiam ferimentos preferiam a dor ao processo de carnificina da frente.
Para mim, com dezanove anos a morte ou a invalidez não eram uma opção.
O misto de sentimentos contraditórios na minha mente era e é explosivo. aprecio a paz e tranquilidade de um hospital de campanha e imagino como seria viver essa paz e tranquilidade num mundo pacífico, mas ao mesmo tempo anseio pelo combate, pela adrenalina de poder morrer, mas acima de tudo pela ideia do abate, da vitória. Missão cumprida.
Não me recordo dos meus anos de adolescência, acho que não os tive verdadeiramente, sinto que da minha infância ao cockpit do meu 109 não demorou nada.
Ontem estava a brincar com o meu carrinho de bombeiros de lata que os meus pais compraram com imenso sacrifício em Berlim e hoje estou a incendiar bombardeiros com das mais letais máquinas de guerra.
Se sobreviver a esta carnificina, quem me devolverá os meus anos de juventude?
O que farei, se só sei voar e matar?
Poderei ser jovial novamente?
Afinal, quando esta guerra acabar não voltará tudo ao normal?
Dos meus amigos de infância já perdi quase todos, uns em combate.outros devido às bombas aliadas porque nós falhámos e conseguimos abater os bombardeiros em número suficiente de forma a impedi-los de bombardearem as nossas cidades e matarem os nossos civis,
A minha pergunta é porque é que se substitui um brinquedo por um instrumento de morte? Porque é que os Homens obrigam outros a matar e morrer?
Sou um adolescente físico com uma vida de sessenta anos.
Odeio esta guerra, odeio as mortes, odeio a carnificina que não tem qualquer sentido.
Perco a minha vida por ideais politico, morais e económicos que não defendo.
Quero ser inocente outra vez, não quero sentir que às minhas mãos já tanto adolescente deixou de ser filho de alguém.
Hoje ao fechar novamente a  tampa do meu caixão para uma nova missão apercebo-me que abomino toda esta guerra.
Sei que não sei fazer mas nada senão isto, parece que me fizeram nascer assim. Um monstro frio que me nome da Pátria tiro a vida a alguém.
Feliz aniversário para mim, que por fazer o que faço mesmo abominando, perdi a minha inocência.

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